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CARNE DE GUANACO

sem censos, controles insuficientes e um governo impulsionando o consumo.

J. Martineau J. Martineau 🇦🇷 Patagônia Argentina 14 de junho de 2026
Carcaças de guanaco em frigorífico de Santa Cruz

O guanaco (Lama guanicoe) é uma espécie nativa da América do Sul, um camelídeo selvagem adaptado às duras condições da estepe patagônica. De grande valor ecológico, habitou a região por milênios, muito antes de os humanos introduzirem ovelhas e bovinos. Foi o principal sustento dos povos originários da Patagônia, que aproveitaram sua carne, couro e lã.

Guanaco em seu habitat natural na Patagônia
O guanaco em seu habitat natural. Espécie emblemática da Patagônia, hoje no centro de um debate que mistura crise econômica, lacunas legais e ausência de dados científicos.

O aumento do preço da carne bovina na Patagônia é hoje dramático. Em abril de 2026, em um açougue em Trelew, Chubut, cortes de churrasco dificilmente se encontram por menos de $25.000 pesos, enquanto cortes premium, como o lombo, superam com folga os $30.000 e podem chegar a $40.000 em açougues boutique.

Diante do desmedido aumento de preços da carne convencional, os governos provinciais e o nacional impulsionam o consumo de carne de guanaco e burro como alternativa ao colapso do consumo interno provocado pela exportação recorde de nossos melhores cortes para outros países.

De maneira improvisada, a carne deste animal nativo e selvagem da Patagônia já se encontra nas prateleiras. Em Santa Cruz, única província com frigoríficos autorizados, o preço de lançamento foi de $6.500 pesos o quilo em packs familiares; em junho de 2026, já se encontrava a partir de $3.000 pesos — uma diferença considerável.

Pacote de carne de guanaco com etiquetas em vários idiomas para exportação
"Guanaco Bola de Lomo", Frigorífico Patagonia Sur, Santa Cruz. As instruções da embalagem estão em espanhol, francês, alemão e holandês: a exportação para a Europa existe há anos e não é novidade do debate de 2026.

O boom das exportações

No primeiro trimestre de 2026, a Argentina faturou mais de USD 1 bilhão em exportações de carne bovina. O preço recorde de exportação — quase USD 7.000 por tonelada — torna o mercado externo um grande negócio para os exportadores.

O presidente da Sociedade Rural Argentina, Nicolás Pino, foi o primeiro dirigente a propor formalmente a extensão do consumo de carne de guanaco e burro em nível nacional. A Secretaria Geral de Karina Milei o respaldou no âmbito da "Semana da Carne Argentina" nos Estados Unidos.

Santa Cruz: a única província com frigoríficos autorizados

Na Argentina, os únicos frigoríficos habilitados para abater e processar guanaco estão em Santa Cruz. A província tem oito modalidades de exploração permitidas e distribui seis cortes comerciais com rastreabilidade e certificação sanitária. O Frigorífico Montecarlo em Las Heras é o nó central desta cadeia.

O Chubut, por outro lado, proíbe o abate e a venda em seu território. Neuquén e Río Negro não têm habilitações ativas. O resultado é uma regulamentação fragmentada onde a mesma espécie tem um status legal completamente diferente conforme o quilômetro quadrado em que se encontra.

Desequilíbrio ecológico

O governo apresenta a carne de guanaco como solução solidária à crise. A espécie é lançada ao mercado sem que ninguém tenha contado quantos exemplares existem, nem quantos podem ser retirados do ecossistema sem prejudicá-lo.

Para os criadores de ovelhas da estepe, o guanaco é há décadas um concorrente direto. Compete pelo pasto com as ovelhas — um animal introduzido no século XIX. Mas nunca houve tentativas de conscientizar e prevenir acidentes sabendo que convivemos com fauna selvagem nas estradas.

Placa de precaução para guanacos em estrada patagônica
Parque Nacional Nahuel Huapi. A sinalização existe, a conscientização não. Conviver com fauna selvagem nas estradas patagônicas requer educação, não apenas placas.

O predador natural ausente

O puma é o predador natural do guanaco. O problema na Patagônia é que o equilíbrio natural está quebrado. Os produtores combatem ativamente o puma porque ele ataca as ovelhas, deixando o guanaco sem seu predador natural. No entanto, a perseguição ao puma pelos produtores — através de caça, armadilhas ou envenenamento — reduziu sua capacidade de controlar a população de guanacos.

Puma abatido por produtores pecuários na Patagônia
Um puma abatido na Patagônia. A perseguição ao predador de topo quebra o equilíbrio natural que mantinha a população de guanacos sob controle.

Mas o puma não é uma "praga" como muitos produtores sustentam. É um predador de topo que cumpre uma função insubstituível no ecossistema. Em um ecossistema saudável, os guanacos são sua presa principal; ao eliminar o puma, o equilíbrio se rompe.

Puma atacando um guanaco na estepe patagônica
Puma atacando um guanaco na estepe patagônica. A relação predador-presa é o eixo do equilíbrio ecológico que a pecuária ovina rompeu há mais de um século.

A suposta superpopulação de guanacos que hoje se observa nas estradas patagônicas é, em parte, o reflexo desse desequilíbrio, embora não haja dados precisos sobre a situação real da população.

A caça ilegal e o risco para a saúde pública

Enquanto o governo promove o consumo formal, uma rede paralela opera à margem da lei sem nenhum controle sanitário. Somente em 2025: uma caminhonete foi interceptada com partes de 42 guanacos caçados ilegalmente no planalto de Somuncurá (≈1.500 kg); buscas em Trelew detectaram uma suposta rede que usava inclusive uma empresa de ônibus para o transporte. Organizações ambientalistas denunciaram que o planalto de Somuncurá está sendo devastado por uma "matança indiscriminada".

Guanacos abatidos ilegalmente na caçamba de uma caminhonete interceptada
Guanacos abatidos ilegalmente na caçamba de uma caminhonete interceptada na Patagônia. Sem controle sanitário, sem rastreabilidade.

O risco: a carne obtida por caçadores furtivos não passa por nenhum controle sanitário. O guanaco é portador natural de parasitas transmissíveis aos humanos. O mais frequente é a Sarcocystis aucheniae, um protozoário que forma cistos macroscópicos — visíveis a olho nu como "grãos de arroz" — nos músculos do animal. O consumo pode provocar gastroenterite com náuseas, vômitos, diarreias e cólicas. Esta zoonose é conhecida na Patagônia como "arrocillo".

Cistos de Sarcocystis aucheniae visíveis em tecido muscular de guanaco
Cistos macroscópicos de Sarcocystis aucheniae em tecido muscular de guanaco, visíveis a olho nu. Na Patagônia são popularmente conhecidos como "arrocillo".

Os guanacos também podem ser portadores de Trichuris tenuis, Dictyocaulus filaria e outras espécies de Sarcocystis, além de parasitas como Eimeria spp. e cestódeos como Moniezia expansa. Em um animal selvagem sem vacinação nem controles, a lista de possíveis patógenos é longa e em grande parte inexplorada.

O preço da crise alimentar

Famílias que não podem pagar a carne bovina saem para o campo caçar um guanaco para se alimentar, sem conhecer os riscos. A proteína animal é uma necessidade real, mas também uma bomba-relógio. Enquanto o governo promove o consumo formal, a informalidade continua crescendo nas sombras.

O mistério do censo e a falta de dados

Hoje ninguém sabe quantos guanacos há na Patagônia. Não há um cálculo oficial. Apenas estimativas sem base científica real.

Os dados existentes são parciais e contraditórios. Antes da chegada das ovelhas ao território, estima-se que em todo o continente americano havia entre 20 e 30 milhões de guanacos. Hoje os cálculos giram em torno de 2 milhões segundo as fontes mais citadas — embora o próprio número seja objeto de debate —; estima-se que 90% vivem na Patagônia.

O que deveria ser discutido

Pensar no guanaco como recurso sustentável implicaria conhecer primeiro a situação da espécie para explorá-la depois. Por enquanto, isso está sendo feito ao contrário.

Por enquanto, enquanto o governo empurra o consumo formal, os caçadores furtivos preenchem o vazio com uma cadeia ilegal que ninguém pode garantir que seja segura para comer.

E no meio, uma espécie nativa comprometida, sem censo, sem controles e com um predador natural — o puma — que é perseguido para proteger um gado introduzido há dois séculos.

Relatório elaborado por GLOBALpatagonia. Junho de 2026.

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