CARNE DE GUANACO
sem censos, controles insuficientes e um governo impulsionando o consumo.
O guanaco (Lama guanicoe) é uma espécie nativa da América do Sul, um camelídeo selvagem adaptado às duras condições da estepe patagônica. De grande valor ecológico, habitou a região por milênios, muito antes de os humanos introduzirem ovelhas e bovinos. Foi o principal sustento dos povos originários da Patagônia, que aproveitaram sua carne, couro e lã.
O aumento do preço da carne bovina na Patagônia é hoje dramático. Em abril de 2026, em um açougue em Trelew, Chubut, cortes de churrasco dificilmente se encontram por menos de $25.000 pesos, enquanto cortes premium, como o lombo, superam com folga os $30.000 e podem chegar a $40.000 em açougues boutique.
Diante do desmedido aumento de preços da carne convencional, os governos provinciais e o nacional impulsionam o consumo de carne de guanaco e burro como alternativa ao colapso do consumo interno provocado pela exportação recorde de nossos melhores cortes para outros países.
De maneira improvisada, a carne deste animal nativo e selvagem da Patagônia já se encontra nas prateleiras. Em Santa Cruz, única província com frigoríficos autorizados, o preço de lançamento foi de $6.500 pesos o quilo em packs familiares; em junho de 2026, já se encontrava a partir de $3.000 pesos — uma diferença considerável.
O boom das exportações
No primeiro trimestre de 2026, a Argentina faturou mais de USD 1 bilhão em exportações de carne bovina. O preço recorde de exportação — quase USD 7.000 por tonelada — torna o mercado externo um grande negócio para os exportadores.
O presidente da Sociedade Rural Argentina, Nicolás Pino, foi o primeiro dirigente a propor formalmente a extensão do consumo de carne de guanaco e burro em nível nacional. A Secretaria Geral de Karina Milei o respaldou no âmbito da "Semana da Carne Argentina" nos Estados Unidos.
Santa Cruz: a única província com frigoríficos autorizados
Na Argentina, os únicos frigoríficos habilitados para abater e processar guanaco estão em Santa Cruz. A província tem oito modalidades de exploração permitidas e distribui seis cortes comerciais com rastreabilidade e certificação sanitária. O Frigorífico Montecarlo em Las Heras é o nó central desta cadeia.
O Chubut, por outro lado, proíbe o abate e a venda em seu território. Neuquén e Río Negro não têm habilitações ativas. O resultado é uma regulamentação fragmentada onde a mesma espécie tem um status legal completamente diferente conforme o quilômetro quadrado em que se encontra.
Desequilíbrio ecológico
O governo apresenta a carne de guanaco como solução solidária à crise. A espécie é lançada ao mercado sem que ninguém tenha contado quantos exemplares existem, nem quantos podem ser retirados do ecossistema sem prejudicá-lo.
Para os criadores de ovelhas da estepe, o guanaco é há décadas um concorrente direto. Compete pelo pasto com as ovelhas — um animal introduzido no século XIX. Mas nunca houve tentativas de conscientizar e prevenir acidentes sabendo que convivemos com fauna selvagem nas estradas.
O predador natural ausente
O puma é o predador natural do guanaco. O problema na Patagônia é que o equilíbrio natural está quebrado. Os produtores combatem ativamente o puma porque ele ataca as ovelhas, deixando o guanaco sem seu predador natural. No entanto, a perseguição ao puma pelos produtores — através de caça, armadilhas ou envenenamento — reduziu sua capacidade de controlar a população de guanacos.
Mas o puma não é uma "praga" como muitos produtores sustentam. É um predador de topo que cumpre uma função insubstituível no ecossistema. Em um ecossistema saudável, os guanacos são sua presa principal; ao eliminar o puma, o equilíbrio se rompe.
A suposta superpopulação de guanacos que hoje se observa nas estradas patagônicas é, em parte, o reflexo desse desequilíbrio, embora não haja dados precisos sobre a situação real da população.
A caça ilegal e o risco para a saúde pública
Enquanto o governo promove o consumo formal, uma rede paralela opera à margem da lei sem nenhum controle sanitário. Somente em 2025: uma caminhonete foi interceptada com partes de 42 guanacos caçados ilegalmente no planalto de Somuncurá (≈1.500 kg); buscas em Trelew detectaram uma suposta rede que usava inclusive uma empresa de ônibus para o transporte. Organizações ambientalistas denunciaram que o planalto de Somuncurá está sendo devastado por uma "matança indiscriminada".
O risco: a carne obtida por caçadores furtivos não passa por nenhum controle sanitário. O guanaco é portador natural de parasitas transmissíveis aos humanos. O mais frequente é a Sarcocystis aucheniae, um protozoário que forma cistos macroscópicos — visíveis a olho nu como "grãos de arroz" — nos músculos do animal. O consumo pode provocar gastroenterite com náuseas, vômitos, diarreias e cólicas. Esta zoonose é conhecida na Patagônia como "arrocillo".
Os guanacos também podem ser portadores de Trichuris tenuis, Dictyocaulus filaria e outras espécies de Sarcocystis, além de parasitas como Eimeria spp. e cestódeos como Moniezia expansa. Em um animal selvagem sem vacinação nem controles, a lista de possíveis patógenos é longa e em grande parte inexplorada.
O preço da crise alimentar
Famílias que não podem pagar a carne bovina saem para o campo caçar um guanaco para se alimentar, sem conhecer os riscos. A proteína animal é uma necessidade real, mas também uma bomba-relógio. Enquanto o governo promove o consumo formal, a informalidade continua crescendo nas sombras.
O mistério do censo e a falta de dados
Hoje ninguém sabe quantos guanacos há na Patagônia. Não há um cálculo oficial. Apenas estimativas sem base científica real.
Os dados existentes são parciais e contraditórios. Antes da chegada das ovelhas ao território, estima-se que em todo o continente americano havia entre 20 e 30 milhões de guanacos. Hoje os cálculos giram em torno de 2 milhões segundo as fontes mais citadas — embora o próprio número seja objeto de debate —; estima-se que 90% vivem na Patagônia.
O que deveria ser discutido
Pensar no guanaco como recurso sustentável implicaria conhecer primeiro a situação da espécie para explorá-la depois. Por enquanto, isso está sendo feito ao contrário.
Por enquanto, enquanto o governo empurra o consumo formal, os caçadores furtivos preenchem o vazio com uma cadeia ilegal que ninguém pode garantir que seja segura para comer.
E no meio, uma espécie nativa comprometida, sem censo, sem controles e com um predador natural — o puma — que é perseguido para proteger um gado introduzido há dois séculos.
Relatório elaborado por GLOBALpatagonia. Junho de 2026.
