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Tubarões na Patagônia: uma pesca incompatível com sua própria biologia

Cinco espécies convivem no Golfo San Matías sob categoria de ameaça. Seu destino depende de uma equação biológica implacável: crescer devagar e reproduzir-se pouco em um mar onde a pesca não dá trégua.

🌎 Argentina 2026-04-27
Tubarões na Patagônia: uma pesca incompatível com sua própria biologia

Nas águas frias do Golfo San Matías e ao longo de toda a costa patagônica vivem pelo menos cinco espécies de tubarões: bacota, cação, gatuzo, gatopardo e peixe-galo. Todas compartilham mais do que território: estão em alguma categoria de ameaça segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

Não é coincidência. Tampouco é um mistério. É biologia.

Uma equação que não fecha: crescer devagar, reproduzir-se pouco

Ao contrário da maioria dos peixes, os tubarões não apostam na quantidade, mas no tempo. Crescem devagar, atingem a maturidade sexual tarde — às vezes depois de mais de dez anos — e têm pouquíssimos filhotes por ciclo reprodutivo.

Um tubarão bacota, por exemplo, pode passar anos se desenvolvendo para depois produzir apenas alguns poucos descendentes.

Essa estratégia evolutiva funcionou durante milhões de anos em oceanos relativamente estáveis. Mas hoje colide de frente com uma pressão que não existia: a pesca intensiva em todas as suas formas.

Porque o problema é matemático. Se um tubarão adulto morre, não há reposição rápida. Não há "rebote" populacional. Há vazio. E esse vazio pode levar décadas para ser preenchido.

Em contrapartida, espécies como a merluza ou a cavalinha liberam milhões de ovos e podem se recuperar rapidamente após uma queda. Os tubarões não têm essa margem. Nunca tiveram.

Quando os pescadores percebem o silêncio

Na falta de censos completos, há um indicador impossível de ignorar: quem está todos os dias na água.

Pescadores esportivos da região vêm apontando há anos uma queda sustentada na abundância de tubarões. Levantamentos de organizações como a WCS Argentina mostram que mais de 60% percebe uma diminuição clara do gatopardo; em algumas zonas, essa queda chega a 80%; e a tendência já era evidente desde pelo menos 2008.

O cação (Mustelus schmitti), além disso, não preocupa apenas na pesca esportiva: suas capturas comerciais caíram mais de 50% em duas décadas, segundo dados do INIDEP.

Não é uma impressão isolada. É um padrão.

A ilusão da pesca com devolução

À primeira vista, devolver ao mar um tubarão capturado parece um gesto responsável. De fato, normativas como a lei N° 5706 do Rio Negro o exigem.

Mas há uma armadilha invisível nessa prática.

Diversos estudos internacionais mostram que entre 5% e 20% dos tubarões liberados morrem depois. Nem sempre é imediato: o estresse, o esgotamento ou as lesões internas fazem seu trabalho em silêncio.

Traduzindo: de cada 100 tubarões capturados, até 20 podem morrer da mesma forma.

Em espécies que levam anos para se reproduzir, esse número não é pequeno. É devastador.

O dilema: esperar dados perfeitos ou evitar o colapso

Diante desse cenário, biólogos e organizações conservacionistas apresentam uma postura clara: agir agora.

As propostas são concretas: suspender temporariamente a pesca direcionada a tubarões na Patagônia, implementar monitoramentos com métodos não invasivos e estudar em profundidade o impacto real da pesca com devolução.

O princípio da precaução resume isso em uma frase simples: se o dano pode ser grave e irreversível, esperar certeza absoluta é um luxo que não se pode pagar.

Um problema local em um mundo que já reagiu

A preocupação não é exclusiva da Argentina. Em nível global, a proteção dos tubarões vem ganhando terreno.

Em 2025, a Convenção CITES incorporou espécies como o cação e o gatuzo ao seu Apêndice II, impondo controles rígidos sobre seu comércio. Outras, como o tubarão-baleia, já contam com níveis de proteção ainda maiores.

A mensagem é clara: os tubarões não resistem ao ritmo atual de exploração.

Uma decisão inevitável

Os tubarões patagônicos não estão desaparecendo por fraqueza, mas por uma força evolutiva que hoje joga contra eles: viver muito, crescer devagar e reproduzir-se pouco.

Cada exemplar perdido é uma história biológica que não se repõe rapidamente. É tempo acumulado que se dissolve.

A pesca esportiva, mesmo na modalidade de devolução, não é neutra nesse contexto. É uma pressão adicional sobre populações que já mostram sinais de esgotamento.

Se o objetivo é evitar um colapso, a conclusão se impõe com a lógica de uma maré: deter a pesca direcionada a tubarões não é uma opção extrema, é uma medida coerente com sua própria biologia.

Porque o oceano pode se regenerar. Mas não em qualquer velocidade. E definitivamente, não na nossa.

Fonte original: Esta reportagem foi elaborada com informações de GLOBALpatagonia.
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