Cerro Catedral: de um refúgio de montanha à meca do esqui sul-americano
Em 1934, um grupo de pioneiros subiu uma montanha inóspita perto de Bariloche com esquis de madeira. Oitenta anos depois, esse mesmo cerro move 6000 pessoas por hora em seus 38 meios de elevação e é o maior centro de esqui do hemisfério sul. Esta é a história de como uma encosta se transformou em lenda.
No inverno de 1934, um grupo de sócios do Club Andino Bariloche calçou esquis nórdicos de madeira e começou a subir uma montanha sem nome a 16 quilômetros do centro. Não havia teleféricos, não havia refúgios, não havia estradas. Havia neve, declive e uma vista do Nahuel Huapi que cortava a respiração.
Esse cerro se chamaria Cerro Catedral, batizado assim por suas agulhas de pedra que lembram os pináculos de uma catedral gótica. Oitenta anos depois, é o maior centro de esqui da América do Sul: 120 quilômetros de pistas, 38 meios de elevação e capacidade para mover 6000 pessoas por hora em direção à neve.
Bariloche antes do esqui: a invenção de uma vila invernal
Para entender Catedral é preciso entender Bariloche. A cidade nasceu em 1902 como um modesto assentamento às margens do Nahuel Huapi, mas foi a chegada do trem em 1934 — o mesmo ano das primeiras expedições ao cerro — que mudou tudo.
O Trem Patagônico conectou Buenos Aires a Bariloche em 36 horas. A alta sociedade portenha, que já veraneava em Mar del Plata, descobriu que podia ter um inverno europeu sem cruzar o Atlântico. Em poucos anos, Bariloche se tornou a vila invernal da elite: as famílias Anchorena, Blaquier e Martínez de Hoz construíram mansões de frente para o lago, o arquiteto Alejandro Bustillo projetou o hotel Llao Llao (inaugurado em 1938) e o centro cívico com sua pedra branca e telhados de ardósia negra, e a cidade se vestiu de alpino em cada uma de suas esquinas.
O projeto era explícito: criar uma «Suíça argentina». Parques Nacionales, criado em 1934 sob o impulso de Exequiel Bustillo, irmão do arquiteto, foi o instrumento do Estado para urbanizar a região com uma estética alpina importada. Os cartões-postais da época mostram mulheres com casacos de pele, homens com calças de montanha e crianças com trenós de madeira, tudo diante da paisagem inverossímil do Nahuel Huapi.
Os anos do refúgio (1934-1949)
Nesse contexto de elite portenha descobrindo a neve, um punhado de imigrantes europeus já esquiava de verdade. Austríacos, suíços, alemães e italianos que haviam chegado à Patagônia fugindo das guerras ou buscando fortuna, e que trouxeram o esqui no sangue. Eles fundaram o Club Andino Bariloche em 1931, três anos antes do trem, e foram os primeiros a olhar para aquela montanha sem nome e enxergar o que nenhum portenho via: um centro de esqui de classe mundial.
Em 1936, o Club construiu o Refúgio Lynch na base do Catedral, a 1000 metros de altura. Não havia como chegar de carro: subia-se a cavalo desde o centro de Bariloche, uma travessia de quatro horas por bosques de lenga e cana colihue. Os poucos que chegavam encontravam um refúgio de pedra e madeira, sem eletricidade, onde se dormia em beliches comunitários e se cozinhava a lenha.
Em 1938, foi realizada a primeira competição oficial: uma descida do cume até a base com esquis de madeira e fixações de couro. Venceu um suíço chamado Hans Nöbl. O tempo não foi registrado — não havia cronômetros.
A era do cabo (1949-1970)
1949 foi o ano do primeiro cabo. Um sistema rudimentar de arraste, movido por um motor de caminhão, que podia subir 200 pessoas por dia. Foi uma revolução: pela primeira vez, chegar ao cume não exigia três horas de caminhada com peles de foca.
Em 1955, foi inaugurada a primeira cadeirinha dupla, fabricada na Suíça e transportada peça por peça de barco até Buenos Aires e de lá de trem e caminhão até Bariloche. Levou três meses para chegar. Funcionou sem interrupção durante 35 anos.
O peronismo primeiro e o desenvolvimentismo depois ampliaram o acesso à neve. O que nos anos 30 era exclusivo da elite e dos imigrantes alpinos, nos anos 60 começou a ser um destino de classe média. As escolas de esqui proliferaram, os hotéis baixaram suas tarifas e a viagem de formatura a Bariloche — que hoje é um rito nacional — teve seus primeiros capítulos nessa década. Em 1960, Catedral recebeu 15.000 esquiadores em toda a temporada.
De refúgio de montanha a meca do esqui na América do Sul
O verdadeiro salto veio nos anos 70. A construção do novo Refúgio Lynch (o anterior havia incendiado), a ampliação de pistas e a chegada de investimento privado transformaram Catedral em um centro de classe internacional.
Em 1995, Catedral foi sede da Copa do Mundo de Snowboard. A televisão internacional mostrou pela primeira vez aquelas agulhas de pedra, aquela neve em pó, aqueles bosques de lenga filmados de helicóptero. As revistas de esqui europeias começaram a incluir Bariloche em seus rankings.
Para o ano 2000, Catedral movia 300.000 esquiadores por temporada. A base havia se transformado em uma pequena cidade com hotéis, restaurantes, escolas de esqui e vida noturna. O que antes era uma encosta inóspita agora tinha semáforos nas interseções das pistas.
Catedral hoje: o gigante do sul (2000-2026)
Em 2026, o Cerro Catedral lida com números que os pioneiros de 1934 não poderiam ter imaginado:
A temporada 2026 começa em 20 de junho. Há passes diários, de temporada completa e combos familiares com desconto antecipado — os preços são atualizados a cada ano no site oficial do Cerro Catedral.



Mas além dos números, Catedral segue sendo o que sempre foi: uma montanha com caráter. As mesmas agulhas góticas que batizaram o cerro continuam se recortando contra o céu. A mesma neve seca que fascinou os europeus nos anos 30. O mesmo silêncio de lenga e pedra quando se apagam os motores das cadeirinhas.
O que esperar em 2026
Para esta temporada, Catedral investiu em 12 novos canhões de neve artificial na cota inferior, renovou a cadeirinha Laguna e ampliou a zona de iniciantes na base. A neve acumulada em abril e maio antecipa uma temporada generosa.
Os centros de esqui chilenos (Valle Nevado, Corralco, Antillanca) também se preparam com investimentos recordes. A competição binacional pelo turismo de neve está mais viva do que nunca. Mas Catedral tem algo que o dinheiro não compra: 80 anos de história em cada uma de suas pistas.
«Isto não se fez com dinheiro. Fez-se com gente que subia caminhando porque não havia outra forma de chegar.»