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⚽ Mundial 2026

Mais que um jogo: Argentina e Inglaterra, uma semifinal com 649 histórias que não se esquecem

Na quarta-feira, em Atlanta, a bola vai rolar com o peso de quatro décadas de história. Porque quando Argentina e Inglaterra se enfrentam em uma Copa do Mundo, nunca é só futebol.

J. MartineauJ. Martineau 🇦🇷 Argentina
Mais que um jogo: Argentina e Inglaterra, uma semifinal com 649 histórias que não se esquecem

Copa do Mundo 2026 — Relatório GLOBALpatagonia

Copa Mundial FIFA 2026
Semifinal · Copa do Mundo FIFA 2026
🇦🇷ARGENTINA
VS
🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿INGLATERRA
Quarta-feira, 15 de julho · 16h no horário argentino
Mercedes-Benz Stadium · Atlanta, Estados Unidos

A semifinal da Copa do Mundo de 2026 entre Argentina e Inglaterra será disputada nesta quarta-feira, 15 de julho, às 16h (horário argentino), no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta. Mas para os argentinos — e especialmente para a nossa Patagônia — esta partida começou a ser jogada há muito tempo. Muito antes de a bola rolar no gramado americano.

O grito que une gerações

“El que no salta es un inglés” — “quem não pula é um inglês”. O canto ressoa em cada estádio, em cada celebração, em cada canto onde haja um argentino torcendo pela Seleção. Mas será que os mais jovens sabem realmente por que é preciso pular para não ser inglês?

A resposta não está no presente. Está nas Ilhas Malvinas, a 463 quilômetros da costa patagônica. Está em 1982, quando 649 argentinos perderam a vida em uma guerra que o Reino Unido, sob a liderança de Margaret Thatcher, levou adiante para manter a ocupação de um território que não lhe pertence.

Para as novas gerações, o grito transcendeu sua origem imediata. Muitos jovens o entoam com fervor, mas será que compreendem o peso histórico dessas palavras? A canção popular “Muchachos, ahora nos volvimos a ilusionar” tratou de fincar uma bandeira: “Na Argentina nasci, terra de Diego e Lionel, dos garotos das Malvinas que jamais esquecerei”. Essa frase transformou a canção em muito mais que um hino de arquibancada.

Como explicou Juan Carlos Parodi, presidente do Centro de Ex-Combatentes de Ushuaia, a canção ajudou a manter vivo um sentimento compartilhado e abriu a porta para uma reflexão mais profunda sobre a história, a memória e o significado da causa Malvinas para as novas gerações. O grito, portanto, não é apenas um desafio futebolístico: é um lembrete de que há uma história que não se negocia.

Jovens soldados argentinos nas Ilhas Malvinas, 1982
“Os garotos das Malvinas que jamais esquecerei”: jovens soldados argentinos nas ilhas, 1982.

Thatcher, Milei e a polêmica que não se fecha

Em meio a essa véspera carregada de história, as declarações do presidente Javier Milei somaram um capítulo controverso. Milei manifestou em várias oportunidades sua admiração por Margaret Thatcher, a ex-primeira-ministra britânica que conduziu o Reino Unido durante o conflito de 1982 e ordenou o afundamento do ARA General Belgrano, onde morreram 323 argentinos.

Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica durante a guerra das Malvinas
Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica que conduziu a guerra de 1982.

“Ela foi brilhante”, afirmou o mandatário em entrevista à BBC, reforçando sua postura ao sustentar que não vê problema em valorizar quem foi adversária na guerra: “Houve uma guerra e a nós coube perder”. Chegou inclusive a definir Thatcher como uma das “grandes líderes da história da humanidade”.

O ARA General Belgrano afundando, 2 de maio de 1982
O ARA General Belgrano, afundado em 2 de maio de 1982 fora da zona de exclusão: 323 argentinos morreram no Atlântico Sul.

Essas declarações, particularmente sensíveis na Patagônia pelo peso histórico da guerra, geraram forte rejeição. Ex-combatentes e dirigentes políticos questionaram que essa admiração “atenta contra a reivindicação legítima” de soberania argentina e a consideram um agravo à memória de quem participou do conflito. A valorização positiva de Thatcher rompe com um consenso histórico na Argentina a respeito das Malvinas, uma causa que costuma unificar todo o arco político.

A mão de Deus e o gol do século

Diego Maradona com a taça da Copa do Mundo, México 1986
Maradona e a taça da Copa no Azteca: a consagração do México 1986.

Não se pode falar de Argentina e Inglaterra em Copas do Mundo sem mencionar aquele 22 de junho de 1986 no Estádio Azteca, no México. Diego Armando Maradona, com a “Mão de Deus” primeiro e o “Gol do Século” depois, selou uma vitória que os argentinos interpretaram como muito mais que um triunfo esportivo.

Como explica o historiador Carlos Sebastián Ciccone, especialista no estudo da construção de identidades nacionais através do esporte: “Há um sentir nacional que aumenta quando a seleção joga e que faz aflorar um conflito que segue muito presente no país”. A Argentina leva na alma três M: Maradona, Messi e as Malvinas.

O futebol, como máxima expressão da cultura popular, desperta paixões que muitas vezes se entrelaçam com a identidade nacional. E quando o rival é a Inglaterra, essa identidade se torna mais consciente, mais militante.

O esporte não é a guerra

A poucas horas da partida, a Federação de Veteranos de Guerra “2 de Abril” emitiu um comunicado intitulado “O sentimento malvinense não se negocia: a memória se defende em cada campo”. Os ex-combatentes pediram para diferenciar a semifinal da reivindicação pela soberania das Ilhas Malvinas e conclamaram a manter viva a memória “sem xenofobia nem ódio”.

Foram categóricos:

“O esporte não é a guerra. A partida das semifinais é um evento esportivo de alcance mundial, não uma revanche armada nem uma compensação histórica. A soberania se defende nos foros internacionais, com a diplomacia, a verdade histórica e a reivindicação pacífica e irrenunciável que dita a nossa Constituição Nacional”.

“Que o futebol seja uma ponte para ‘malvinizar’ e para lembrar ao mundo que a nossa reivindicação segue mais vigente do que nunca. A bola rola, o orgulho pelas nossas cores se multiplica, mas a memória permanece intacta”, concluíram.

Soldados argentinos nas Ilhas Malvinas, 1982
Soldados argentinos nas Malvinas, 1982. “A memória se defende em cada campo”, dizem hoje os veteranos.

Um abraço que cruza oceanos

O fervor pela Seleção Argentina não conhece fronteiras. A 17.000 quilômetros de distância, em Bangladesh, milhares de torcedores saem às ruas com camisas celestes e brancas, muitos com a camisa 10 de Lionel Messi, em cima de caminhões, entre bandeiras e cânticos.

Por que Bangladesh ama tanto a Argentina? A resposta está em 1982, quando Bangladesh apoiou a Argentina nos foros internacionais durante a Guerra das Malvinas. E em 1986, o triunfo da Seleção com a “Mão de Deus” selou um amor que perdura até hoje. O conflito com a Coroa britânica foi chave para construir esse vínculo emocional, junto com a figura de Maradona e os êxitos recentes de Messi.

A Irlanda, outro país historicamente prejudicado pelo Reino Unido, também encontra na camisa argentina um símbolo de resistência. E não são os únicos. Em cada canto do mundo onde o colonialismo britânico deixou feridas abertas, há alguém que na quarta-feira vai pular com a Argentina para não ser um inglês.

A bola rola, a memória fica

Nesta quarta-feira em Atlanta, quando os 70 mil espectadores do Mercedes-Benz Stadium entoarem “el que no salta es un inglés”, quando os jogadores argentinos pularem ao ritmo desse grito ancestral, quando a bola rolar e a partida começar, não estará em jogo apenas uma vaga na final.

Cemitério argentino de Darwin, Ilhas Malvinas
O cemitério argentino de Darwin, nas Ilhas Malvinas, onde descansam os caídos de 1982.

Estará em jogo a memória de 649 heróis que ficaram nas ilhas e nas águas do Atlântico Sul. Estará em jogo a soberania de um território que nos pertence. Estará em jogo, como diz o historiador Ciccone, um conflito que “segue muito presente no país” e que “sempre se visibiliza no futebol”.

Porque, como bem disseram os veteranos, o esporte não é a guerra. Mas o futebol, quando Argentina e Inglaterra se enfrentam, é o palco onde uma nação inteira lembra quem é e de onde vem.

Que a bola role. Que a memória permaneça. E que na quarta-feira, todos os que pularmos, o façamos pelos garotos das Malvinas que jamais esqueceremos. Que viva a Argentina, que viva o esporte!

Informe original de GLOBALpatagonia. Por J. Martineau.
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