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🧊 Meio Ambiente

Do que falamos quando falamos da "nova" Lei das Geleiras?

O projeto que modificaria a Lei 26.639 já passou pelo Senado com 40 votos a favor. Restringe a proteção, transfere poder às províncias mineradoras e deixa fora do amparo as geleiras de detritos. Por trás do lobby: Barrick Gold, BHP, Glencore e megaprojetos de cobre e lítio que somam mais de 40 bilhões de dólares.

🌎 Argentina 2026-04-27
Do que falamos quando falamos da "nova" Lei das Geleiras?

Em essência, o projeto modifica a Lei 26.639, sancionada em 2010, que protege geleiras e o ambiente periglacial — solos congelados que regulam a água —. As mudanças mais relevantes incluem quatro eixos que redefinem completamente o alcance da norma.

1. Redefinição da proteção. A lei atual ampara todas as geleiras como reservas estratégicas de água. A reforma restringe essa tutela apenas aos corpos de gelo com "função hídrica efetiva e relevante para as bacias hidrográficas", deixando de fora as geleiras de detritos — rocha com baixo teor de gelo — que hoje estão protegidas. 2. Transferência de poder às províncias. As jurisdições cordilheiranas ricas em minerais poderiam decidir quais áreas são protegidas e quais são habilitadas para a mineração, quebrando o caráter uniforme dos pressupostos mínimos ambientais nacionais. 3. Exclusão do Inventário Nacional. Seria permitido excluir zonas por decisões administrativas provinciais, sem critério científico. 4. Critérios subjetivos. Introduz-se o conceito de "alteração relevante" sem parâmetros definidos, deixando nas mãos dos governos locais decisões que hoje são proibidas pela lei nacional. As posições em disputa: água versus mineração

O governo de Javier Milei e os governadores de Catamarca, Jujuy, Salta e San Juan impulsionam a reforma para "ordenar o marco normativo" e destravar investimentos de dezenas de bilhões de dólares, especialmente em cobre e lítio. Do outro lado, organizações como o Greenpeace e a Fundação Ambiente e Recursos Naturais (FARN), junto a assembleias cidadãs, advertem que se trata de uma "regressão ambiental inconstitucional" que coloca em risco as reservas de água doce em um contexto de crise hídrica e mudança climática acelerada.

Quem está por trás do lobby minerador? Barrick Gold (Canadá): sua mina Veladero, em San Juan, se sobrepõe a geleiras que alimentam o rio Jáchal. Lundin Mining e BHP: impulsionadoras do megaprojeto Vicuña, uma das maiores reservas de cobre do mundo com investimentos previstos de USD 18 bilhões. Glencore (Suíça): busca desenvolver El Pachón — USD 9,5 bilhões — na fronteira de San Juan com o Chile. Também se mencionam McEwen Cooper com Los Azules, Río Tinto e First Quantum Minerals. A votação no Senado — 26 de fevereiro de 2026

O projeto foi aprovado com 40 votos a favor, 31 contra e 1 abstenção. Veja como votou cada bloco:

Bloco A favor Contra
La Libertad Avanza 21 senadores (bloco completo)
Unión por la Patria Corpacci (Catamarca), Uñac (San Juan) 23 senadores do bloco
Convicción Federal Andrada (Catamarca), Moisés (Jujuy), Mendoza (Tucumán)
UCR Fama, Galaretto, Juri, Losada Abad, Kroneberger
PRO Goerling Lara Cristina, Huala
Outros / províncias Arce e Rojas Decut (Misiones), Royón (Salta), Ávila (Tucumán), Espínola (Corrientes) Terenzi (Chubut), Vigo (Córdoba), Carambia e Gadano (Santa Cruz)
Abstenção Corroza (La Neuquinidad)
Quais consequências pode trazer?

Perda de proteção hídrica para milhões de pessoas em regiões áridas. Avanço da megamineração sobre recursos hoje protegidos. Fragmentação da política ambiental: sem um critério nacional uniforme, cada província decide sobre um recurso que não reconhece limites políticos. E conflitos sociais e judiciais: a reforma enfrenta impugnações por possível inconstitucionalidade e resistências comunitárias que já estão organizadas.

O que vem a seguir?

O projeto passa para a Câmara dos Deputados, onde o oficialismo deverá somar aliados para garantir os votos. O cenário é mais incerto do que no Senado: blocos provinciais poderiam alinhar sua posição com os interesses mineradores locais, mas a pressão das ruas e da comunidade científica também pesa. A FARN e o Greenpeace já anunciaram que contestarão a norma perante a justiça se for aprovada, por colidir com os pressupostos mínimos ambientais garantidos pela Constituição. Para a Patagônia, a resolução deste debate definirá se projetos de escala monumental — Vicuña, El Pachón, Los Azules — podem avançar sobre territórios hoje protegidos. O gelo não negocia prazos.

A discussão sobre a Lei das Geleiras é, em essência, um debate sobre o modelo de país: o que prioriza a atração de investimentos mineradores em grande escala, versus o que coloca a proteção da água como um piso mínimo e irrenunciável.

Fonte original: Esta reportagem foi elaborada com informações de GLOBALpatagonia.
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